Quando fiz 26 anos, comecei a mapear (mentalmente) as minhas conquistas. As materiais, especificamente. Algo parecido com uma crise dos 30, só que precoce.
Percebi que não tinha conquistado - ou comprado - nada daquilo que achei que fosse ter quando chegasse naquela idade. Senti-me preenchida por um enorme sentimento de vazio e incompetência. Vários colegas com quem havia estudado já tinham seus carros, ou seus apartamentos. Podiam até não ser quitados, mas conseguiam pagar em dia suas prestações e mais: conseguiram ter aprovados os respectivos financiamentos. E eu? Nada. Nem tentar o financiamento, porque já me frustrava nas simulações.
Dai percebi também que estes mesmo colegas não precisavam contribuir com um centavo em casa. Que o salário deles era só para eles. Nunca recebi salários altos, mas sempre fiz contribuições em casa. A minha opção foi tentar dar um pouquinho de mimo para minha Mãe e meus Irmãos. Sabe aquelas coisas que a gente precisa, mas acha caro e não tem coragem de comprar? Ressalto que o caro aqui é algo de no máximo cem reais. São coisas do tipo: um sapato fechado e confortável para ir trabalhar em um dia de chuva; duas blusinhas para sair porque as que a gente tem já estavam surradinhas e eram usadas até para dormir; colocar um blecáute na janela porque o apartamento pega sol da tarde; um casaco com capuz porque Irmão Caçula não usa guarda-chuva (Hora de confessar: não sei a nova regra gramatical. Tem hífen ou não??)...
Pois é. Estes colegas não tinham este tipo de preocupação. Comecei a mudar o foco do pensamento para estes pequenos mimos que eu tive oportunidade de oferecê-los e o quanto isto me fazia bem. Foi então que percebi que as sobrancelhas franzidas no início do pensamento transformaram-se em um sorriso bobo e um par de olhinhos marejados.
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